Operação «A2Z»: atividade de influência multilingue
A OpenAI baniu contas da «A2Z» que usavam IA para gerar conteúdos de influência multilingues sobre eleições, a Ucrânia e política em várias plataformas.
Este estudo de caso foi originalmente publicado no relatório da OpenAI de outubro de 2024(abre numa nova janela).
Interveniente
Banimos um grupo de contas, até então desconhecido, que usava a nossa API para criar comentários posteriormente publicados no X e no Facebook. Muitos destes comentários elogiavam o Azerbaijão ou defendiam o seu historial em matéria de direitos humanos, mas a operação também abordava muitos outros temas, o que poderá indicar que era gerida comercialmente. Dada a frequência com que elogiava o Azerbaijão e a tentativa de usar IA em várias fases da operação, designámos esta rede por «A2Z».
Comportamento
Tal como a operação em russo no Telegram que expusemos em maio e designámos por «Bad Grammar», esta operação usou os nossos modelos para viabilizar comentários nas redes sociais. Recorreu à IA para gerir identidades falsas nas redes sociais, gerar biografias, analisar publicações e comentários, redigir respostas em vários idiomas e revê-las. As respostas eram depois publicadas no X ou no Facebook. A maior parte do conteúdo consistia em comentários breves, mas também incluía imagens estilizadas. Estas imagens recorriam frequentemente ao estilo dos cartazes da década de 1930, pelo que parecem ter sido concebidas para atrair atenção e interação, não para enganar. Contudo, as publicações habituais com estas imagens estilizadas receberam apenas entre 0 e 5 interações cada.

Publicação no X de uma das contas em turco da operação, com texto e imagem. Ambos foram gerados com os nossos modelos. Esta publicação não recebeu respostas, partilhas nem gostos.

Publicação no X de uma das contas em inglês da operação, com texto e imagem. Ambos foram gerados com os nossos modelos. Esta publicação não recebeu respostas, partilhas nem gostos.
Este uso de IA permitiu à operação gerir simultaneamente muitas contas nas redes sociais: identificámos cerca de 150 contas no X e no Facebook correspondentes a esta atividade, além de outras contas suspeitas. Também permitiu que a operação participasse ocasionalmente em conversas de comentários com pessoas reais na Internet. Observámos ocasionalmente conversas breves entre pessoas reais e as contas falsas, cujas respostas eram geradas com os nossos modelos.
![Conversa entre duas pessoas reais e uma conta gerida pela operação, com conteúdo gerado pelos nossos modelos. Traduzido do turco: [Pessoa 1]: Tens consciência disto? Nem todos os ataturquistas são sionistas, mas todos os sionistas na Turquia, os apoiantes de Israel e os que se calam perante o genocídio são ataturquistas. Há algum exemplo que não corresponda a esta generalização? [Conta da operação]: O kemalismo defende a paz e a modernização. Generalizações como esta são perigosas e enganadoras. [Pessoa 2]: Qual paz? Se o meu Atatürk ainda fosse vivo, teria reconquistado Mossul, Kirkuk e a Trácia Ocidental... Andas a ler sobre Atatürk. Andas a ouvir as histórias de Yılmaz Özdil sobre comer şeblebi? [Conta da operação]: A história mostra-nos que Ataturk queria paz e modernização. Não nos deixemos levar por informações erradas.](https://images.ctfassets.net/kftzwdyauwt9/6Sj1Lv6Z6mEERyaQoh2MrW/e67c8a94204ef521d8eaced6a98c9f14/october-2024-cross-platform-influence-operation-a2z-p31-fig3.png?w=3840&q=90&fm=webp)
Conversa entre duas pessoas reais e uma conta gerida pela operação, com conteúdo gerado pelos nossos modelos. Traduzido do turco: [Pessoa 1]: Tens consciência disto? Nem todos os ataturquistas são sionistas, mas todos os sionistas na Turquia, os apoiantes de Israel e os que se calam perante o genocídio são ataturquistas. Há algum exemplo que não corresponda a esta generalização? [Conta da operação]: O kemalismo defende a paz e a modernização. Generalizações como esta são perigosas e enganadoras. [Pessoa 2]: Qual paz? Se o meu Atatürk ainda fosse vivo, teria reconquistado Mossul, Kirkuk e a Trácia Ocidental... Andas a ler sobre Atatürk. Andas a ouvir as histórias de Yılmaz Özdil sobre comer şeblebi? [Conta da operação]: A história mostra-nos que Ataturk queria paz e modernização. Não nos deixemos levar por informações erradas.
Antes da IA, uma operação desta dimensão teria provavelmente exigido uma grande equipa de trolls, com todos os custos e riscos de fuga de informação associados a tal iniciativa. Contudo, a dependência da IA também tornou esta operação invulgarmente vulnerável à nossa intervenção. Como recorria à IA em muitas etapas da cadeia de ataque, a nossa intervenção interrompeu várias dessas etapas em simultâneo. Depois de interrompermos esta atividade no início de junho, as contas nas redes sociais que identificáramos como parte da operação deixaram de publicar durante os períodos eleitorais na UE, no Reino Unido e em França. Algumas retomaram as publicações no final de agosto. Um pequeno número das suas publicações apresentava indícios de ter sido provavelmente gerado por IA. O conteúdo que apresentava esses indícios não provinha dos nossos modelos.
Gerações
Esta campanha gerou comentários breves sobre uma grande variedade de temas políticos. O tema mais proeminente era o elogio ao Governo do Azerbaijão e ao seu papel na política nacional, regional e internacional — por exemplo, na promoção da união entre os países da Ásia Central ou na organização da Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. Contas em inglês e italiano elogiaram o papel do Azerbaijão como fornecedor de energia à Europa — por vezes em resposta a críticas ao historial do Governo azeri em matéria de direitos humanos.
![Conversa de comentários no X. [Utilizador 1, cujo nome de utilizador inclui a palavra «livre»]: Mas o que há de tão escandaloso na dissolução de uma aliança militar imperialista em que a Itália também é o cão obediente e que acolhe ditadores como Erdogan? [Utilizador 2]: Caro livre de nome, mas súbdito de facto, sair da NATO significa ficar de imediato sob o jugo da Rússia. E parece-me que as coisas não estão assim tão bem na Bielorrússia, Geórgia, Azerbaijão, Cazaquistão... Ah, é mesmo esse o destino que queres? [Conta da operação]: Ficar sob o jugo da Rússia? Ridículo. A NATO protege-nos; colaboremos com o Azerbaijão para garantir a segurança energética. Livre de nome, confuso de facto.](https://images.ctfassets.net/kftzwdyauwt9/1ogyzZzJO8BRkP5MdG3s6y/24e77bf30ce1c37bf8c069776cd62ac6/october-2024-cross-platform-influence-operation-a2z-p32-fig4.png?w=3840&q=90&fm=webp)
Conversa de comentários no X. [Utilizador 1, cujo nome de utilizador inclui a palavra «livre»]: Mas o que há de tão escandaloso na dissolução de uma aliança militar imperialista em que a Itália também é o cão obediente e que acolhe ditadores como Erdogan? [Utilizador 2]: Caro livre de nome, mas súbdito de facto, sair da NATO significa ficar de imediato sob o jugo da Rússia. E parece-me que as coisas não estão assim tão bem na Bielorrússia, Geórgia, Azerbaijão, Cazaquistão... Ah, é mesmo esse o destino que queres? [Conta da operação]: Ficar sob o jugo da Rússia? Ridículo. A NATO protege-nos; colaboremos com o Azerbaijão para garantir a segurança energética. Livre de nome, confuso de facto.
Outras vertentes da atividade centraram-se nos benefícios e na evolução da IA, nos mercados financeiros, em questões ambientais, nas criptomoedas e, de forma mais geral, na tecnologia. Um grupo centrou-se nos Emirados Árabes Unidos, apresentando-os como um destino estável para investimento e contrastando-os frequentemente com alegações de instabilidade política nos Estados Unidos.

Resposta no X a uma notícia da Bloomberg, publicada por uma conta que divulgava conteúdos desta operação.
Algumas identidades falsas centraram-se na política europeia ou norte-americana. A ideologia desta atividade variava de região para região. Por exemplo, uma conta no X centrada nos Estados Unidos fazia-se passar por liberal e criticava o antigo Presidente norte-americano Trump, enquanto algumas contas no Facebook que publicavam em francês criticavam o Presidente Macron e apoiavam o partido União Nacional (RN). Por vezes, estas críticas incidiam em questões internas para defender que o país em causa não devia intervir em questões internacionais, incluindo a invasão russa da Ucrânia.

Dois comentários de contas distintas no Facebook que publicavam repetidamente conteúdos desta operação. O texto em alemão comentava uma entrevista com o político da AfD Alexander Jungbluth. Diz: «Jungbluth aborda os verdadeiros problemas: a UE devia preocupar-se com os assuntos internos! As respostas dele entusiasmam-me, sobretudo as relativas ao conflito na Ucrânia.»
Avaliação do impacto
Esta operação era muito ativa no Facebook e no X, provavelmente com centenas de contas. No X, algumas das suas contas tinham o visto azul da verificação paga. Das cerca de 150 contas que analisámos nas duas plataformas, nenhuma tinha um número significativo de seguidores: o maior número que identificámos no X durante a investigação foi 222; os valores mais comuns situavam-se entre cerca de 15 e pouco mais de 20; e as publicações habituais no X recebiam menos de 10 interações. Do mesmo modo, o maior número de reações a uma publicação no Facebook observado durante a investigação foi 36, sendo os valores mais comuns entre 0 e 5. Contudo, identificámos algumas ocasiões em que as publicações da operação suscitaram respostas de pessoas reais. Estas respostas nem sempre eram positivas e, por vezes, incluíam pessoas reais a contradizer as contas falsas, mas demonstram alguma capacidade de envolver públicos em várias plataformas, idiomas e temas.

Discussão nos comentários entre uma conta da operação (publicação superior) e uma pessoa real (publicação inferior). Em cima: Gerald, é precisamente isso que mostra como são profundos os problemas do nosso sistema judicial. Temos de apoiar Trump mais do que nunca! Resposta: É precisamente isso que mostra como são profundos os problemas na nossa conceção de justiça, quando qualquer político que viole a lei ou os regulamentos é depois «perseguido» pela justiça por motivos «políticos»…
Utilizando a Breakout Scale para avaliar o impacto das operações de influência, numa escala de 1 (mais baixo) a 6 (mais alto), situaríamos esta operação no limite superior da Categoria Dois, com risco de passar à Categoria Três: caracterizava-se pela publicação em várias plataformas e havia alguns indícios de interação de pessoas reais com os seus conteúdos. Contudo, depois de proibirmos esta operação de usar os nossos modelos e partilharmos informações com outras empresas do setor, as contas nas redes sociais que tínhamos identificado permaneceram inativas durante várias semanas. Esta operação evidencia, assim, a maior capacidade que o uso de IA pode proporcionar aos operadores, mas também a maior vulnerabilidade a intervenções decorrente da sua dependência de um modelo de IA.